Compras por impulso dobram após site coletivo
A instantaneidade induz o consumidor a fechar o negócio sem calcular gastos
Por esse preço, eu não posso perder de jeito nenhum! Essa é a sensação que invade a maioria dos consumidores dos sites de compras coletivas quando eles abrem o e-mail e lá está aquela oferta, mesmo que seja de uma depilação a laser ou uma escova progressiva que ninguém planejava comprar. Desde que eles foram criados, há um ano, o número de pessoas que admitem fazer compras por impulso dobrou.
A Pesquisa de Orçamento Doméstico da Federação do Comércio de Minas Gerais (Fecomércio Minas) revela que, em janeiro de 2010, 30,4% das pessoas entrevistadas admitiram fazer compras por impulso. Em janeiro deste ano, o percentual saltou para 59,7%.
A coordenadora do departamento de economia da Fecomércio, Silvânia Araújo, afirma que não é possível atribuir o aumento exclusivamente ao surgimento desses sites porque a pesquisa não mede exclusivamente compras pela internet. Entretanto, o diretor comercial e de marketing da Web Consult, Leonardo Bortoletto, garante que, mesmo sendo uma pesquisa ampla, os reflexos são inegáveis. \"O endividamento por impulso aumentou porque está sobrando renda, mas, com certeza, a maior parcela desse aumento está ligada aos sites de compras coletivas, pois as várias ofertas e grandes descontos dão ao cliente uma sensação enorme de ganho\", explica.
Sem pensar . O impulso custa caro. Segundo especialistas em marketing e negócios virtuais, como a maioria das ofertas são praticamente instantâneas, as pessoas compram rápido para não correr o risco de perder, uma mania que pode render uma bolha de endividamento.
A analista de documentos Pollyanne Marroques, 23, é uma viciada assumida em sites de compras coletivas e, agora, está sofrendo as consequências da sua impulsividade. \"Meu cartão ficou muito apertado e tive que abrir mão de viajar neste Carnaval\", afirma Pollyanne, que está prestes a perder um cupom de R$ 90 de uma depilação porque comprou uma oferta mais completa por R$ 210.
Para conferir as promoções, ela conta com o apoio de três amigos que trabalham no setor. \"Já falei que deveríamos criar um movimento Compras Coletivas Anônimos\", admite a colega Mariana Loureiro, 28, que vive se equilibrando no limite do cartão. \"Agora eu estou procurando um desconto de um consultor de finanças para comprar em algum site desses\", brinca.
O estagiário Cláudio Pereira Júnior, 25, nunca estourou o cartão de crédito, mas lançou mão de uma estratégia para evitar isso. \"Eu vi uma oferta muito boa que não poderia perder. Então liguei para a operadora e pedi para aumentar o meu limite, e eles aumentaram\", conta Cláudio.
DICAS
Compradoras assíduas viram especialistas
De tão acostumadas a comprar, as amigas Pollyanne Marroques, Mariana Loureiro e Christianne Lacerda Soares passaram de consumidoras a especialistas habilitadas a dar dicas de bom uso em sites de compras coletivas. \"Eu nunca perdi um cupom, pois criei uma pasta no meu computador para acompanhar quando eles vão vencer\", conta Mariana Loureiro, compradora assumida. \"Antes de comprar, a gente sempre liga para o lugar e confere a oferta\", afirma Pollyanne, que já perdeu as contas de quantos sites tem cadastro. \"Tem até um site agregador de ofertas, o saveme.com.br, ele reúne todas as promoções e facilita na hora de conferir\", conta Pollyanne.
Segundo ela, mesmo sem precisar tanto daquele produto ou serviço, quando se tem acesso à oferta, dá uma vontade irresistível. \"A sensação de que aquilo é imperdível é a melhor desculpa para poder comprar\", reconhece.
A assistente de projeto Christianne Lacerda Soares, 23, é compradora assídua, mas garante que não é compulsiva. \"Eu compro mais cupons de descontos para usar em barzinhos, no fim de semana, pois são gastos que eu já teria mesmo e vale muito a pena\", conta a compradora, que costuma visitar os sites pelo menos três vezes por semana. A consumidora conta que a estratégia usada é inteligente, pois garante economia no que já seria comprado. (QA)
EXPLOSÃO
Mil sites promocionais na web
Especialistas em marketing apostam em recuo para os próximos anos
Queila Ariadne
Faz apenas um ano que o primeiro site de compras coletivas, o Peixe Urbano, foi inaugurado. No começo, eram poucos. Em dezembro do ano passado, já eram 405 e hoje, de acordo com levantamento da consultoria Bolsa de Ofertas, já são 1.025 no Brasil – um crescimento de 153% em menos de três meses Mas a tendência, segundo especialistas, é que esse volume recue. \"Na realidade, como tudo que é uma febre, uma hora começa a cair dentro da realidade. As ofertas têm ficado muito repetitivas e as pessoas estão se cansando\", avalia o diretor comercial e de marketing da Web Consult, Leonardo Bortoletto.
Segundo o sócio-diretor da Carvalho Martins Comunicação, Sérgio Martins, as empresas precisam tomar muito cuidado com esse tipo de publicidade. \"Tem muita gente que já deleta os e-mails das ofertas, que são muito parecidas, igual se faz com os spams. Quando a ferramenta de marketing deixa de ser novidade e começa a incomodar, ela passa a preocupar\", destaca.
Martins compara os sites de compras coletivas com uma degustação em supermercado. \"Os fornecedores usam o próprio produto para fazer a propaganda e convencer o cliente a comprar depois. Mas o risco é grande, pois, se quem experimenta não gosta, vai sair falando mal\", destaca. \"Por isso mesmo, acredito que a ferramenta não é ideal para grandes marcas; já para lojas de bairros, que precisam de divulgação, aí sim\", analisa Carvalho.
Fidelização. O diretor da Web Consult também alerta para o perigo de ofertar produtos e serviços em sites de compras coletivas. \"A empresa consegue fazer caixa antecipado, pois vende primeiro para oferecer depois. Mas, se não estiver preparada para atender bem, terá problemas. O objetivo é fidelizar, mas, se quem comprou não consegue agendar um serviço, jamais voltará a comprar no local, que terá investido caro para expor seus produtos ou serviços naquele site\", ressalta.
O excesso de ofertas de depilação a laser e escovas progressivas, que são constantes nesses sites, é um caso preocupante, segundo Bortoletto. \"As empresas estão vendendo muito abaixo do custo e estão disponibilizando muitos cupons. Além disso, os fornecedores têm que pagar parte do que arrecadam ao site onde anunciam. Se não conseguirem fidelizar os clientes, terão problemas de caixa\", afirma.
TENDÊNCIA
Futuro para esse modelo de negócios são as fusões
Na visão do sócio-diretor da Carvalho Martins Comunicação, Sérgio Martins, o mais provável é que surja uma onda de fusões e aquisições. \"Não tenho bola de cristal, mas acredito que os maiores vão comprar os pequenos, muitos vão fechar e vão sobrar apenas alguns players como referência\".
Na verdade, essa onda de fusões já começou. O primeiro negócio do tipo foi fechado no mês passado: o Imperdível, sétimo no ranking, comprou o pequeno Deu Samba. O City Best também deve ir às compras nos próximos meses. Segundo o sócio-fundador, Sérgio Oliveira, toda semana a empresa recebe pelo menos dois contatos de sites menores querendo vender seus ativos. (QA)
Fonte: O Tempo
Postado em: 13 de Março de 2011