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Caiu na rede é público

Caiu na rede é público

Superexposição nas redes sociais pode trazer riscos para a vida pessoal e profissional e até parar na Justiça


Já se foi o tempo em que o único cuidado no uso da internet era manter o anti-vírus atualizado e não clicar em links suspeitos. Com a popularização das redes sociais no Brasil - 86% dos internautas brasileiros acessam esses sites, o maior índice do mundo - os danos provocados pelo uso da internet deixaram de afetar apenas a máquina para comprometer a privacidade e a imagem de quem a utiliza.

A fórmula é simples: de um lado, redes sociais e o ímpeto de compartilhar informação pessoal. De outro, uma rede de contatos interconectada (os nossos amigos estão conectados a seus próprios amigos, que por sua vez estão conectados a outros amigos, etc.) que facilita a difusão desses dados.

Por um erro de cálculo desses dois fatores, há quem exagere na hora de publicar informações e subestime o alcance do conteúdo postado. \"As pessoas colocam informações de forma irrestrita na internet. Elas têm que ter consciência que, por mais que estejam se dirigindo a apenas uma pessoa, aquilo que publicam está exposto para \'n\' pessoas\", alerta Leonardo Bortoletto, consultor em redes sociais.

É neste \"n\" que mora o perigo. Nele, estão contidos os amigos, mas também gente desconhecida, com variadas intenções, desde os chamados \"stalkers\" (perseguidores), gente que tem por hábito buscar na rede informação sobre determinada pessoa por obsessão, até criminosos. \"Teve um caso em que os criminosos escolheram a vítima de sequestro pelos sites de relacionamento. A vítima postava em seu perfil que a família viajava para o exterior e tinha carros importados\", relata Pedro Paulo Marques, delegado da Delegacia Especializada em Investigação de Crimes Cibernéticos. O site pleaserobme.com (Por favor, me roube) chama atenção para o risco à segurança que a publicação desse tipo de conteúdo pode representar. Ele agrega posts do Foursquare, aplicativo que indica onde o usuário está. A ideia é alertar que ele pode ser usado por bandidos para saber quando as pessoas não estão em casa.

De vítima, o internauta pode também virar vilão. Comentários ofensivos publicados na internet podem resultar em processo por calúnia, injúria ou difamação. A estudante paulista Mayara Petruso, que ficou conhecida após tecer comentários contra nordestinos no Twitter, responde processo por crime de racismo. \"Qualquer dizer que você colocar em um site e atingir a honra de outra pessoa, ela pode procurar a delegacia e tomar as providências\", diz o delegado. Esse tipo de crime é o segundo em número de ocorrências na Delegacia de Crimes Cibernéticos no Estado. Para quem se vale do recurso do anonimato para soltar o verbo contra um desafeto, Marques avisa: \"A sensação de anonimato é falsa. A gente consegue chegar até o criminoso, sim\".

Fotos postadas na rede também estão servindo de provas na justiça. No processo em que a ex-mulher do empresário do jogador de futebol Neymar, Wagner Ribeiro, requisita pensão, os advogados de ambas as partes utilizaram fotos de seus perfis na internet nas quais cada um esbanjava seus luxos. A estratégia era mostrar que Ribeiro tinha condições de pagar a pensão e que a ex-esposa não passava por dificuldades financeiras.

Em risco, a imagem profissional

O que se comenta em aparentemente inofensivos 140 caracteres ou no círculo de amigos virtuais também pode ter implicações indesejadas no trabalho. O mundo corporativo já não se ampara mais somente no currículo para preencher uma vaga. Pesquisa da empresa de recrutamento Robert Half aponta que o Brasil é o país onde as empresas mais se valem das redes sociais para contratar. Cerca de 44% dos executivos ouvidos garantiram que conteúdo negativo em redes sociais seria motivo de eliminação num processo seletivo.

Cristiane de Ávila, presidente da sessão Minas Gerais da Associação Brasileira de Recursos Humanos, considera que eliminar um candidato antes da entrevista pode ser uma decisão precipitada, mas concorda que é necessário prudência na internet para não colocar em risco a imagem profissional: \"O cuidado demonstra parte do que a gente é. Se a gente cuida bem da nossa intimidade, replica isso no nosso ambiente\", afirma.

Gente anônima e famosa já perdeu o emprego por causa das redes sociais. Em fevereiro, uma funcionária do Supremo Tribunal Federal foi demitida após brincar com uma possível aposentadoria do senador José Sarney no Twitter. Na mesma época, o comediante norte-americano Gilbert Gottfried perdeu um contrato de publicidade em razão de uma piada sobre o tsunami no Japão. \"Dependendo de como a pessoa usuou a internet, se foi para xingar a empresa ou passar pornogradia por e-mail para os colegas, por exemplo, ela pode ser demitida por justa causa\", afirma o advogado Eduardo Máximo Patrício.

A resposta das empresas é o controle do uso das redes sociais no trabalho. Levantamento da companhia de recursos humanos norte-americana Manpower mostra que o Brasil, mais uma vez, é o país onde há mais controle sobre esses sites no trabalho: o índice é de 55%.

Os tropeços decorrentes do uso das redes sociais são o preço pago por uma sociedade viciada em superexposição, analisa a psicóloga Vivian Marchezini Cunha. \"É uma questão cultural e contemporânea. A vida privada só é interessante quando está exposta. Não é à toa que temos tantos reality shows\", observa. Aprender a utilizar as redes sociais sem provocar danos para si ou para os outros ainda é questão de tempo, ela diz, pois esses sites ainda são um fenômeno recente. Mas não há nada de difícil, uma vez que as regras de conduta no universo virtual não são diferentes daquelas da vida real. \"Você não fala para todo mundo o que está sentindo, você escolhe as pessoas com quem vai se abrir. A gente age de maneira mais reservada. Tem que levar isso para as redes sociais\", afirma Vivian.
Fonte: Jornal Pampulha
Postado em: 16 de Julho de 2011
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